Quando decidi escrever alguns temas relacionados a empreendedorismo, meu principal objeto de estudo, fiquei por algum tempo me perguntando por onde começar e, não tenho dúvidas, que a melhor forma é alinhando a linguagem.
Tenho visto constantemente a mídia e as pessoas em geral, usarem sem critérios de diferenciação as palavras empreendedor e empresário, como se um fosse o estágio do outro. Como se empreendedor fosse o aprendiz de empresário, tipo, se o “cara” está começando, é empreendedor, se está estabelecido é empresário.
Algumas observações do que encontramos na mídia:
De alguma forma, o empresário carrega uma visão negativa ao negócio, enquanto o empreendedor, sempre traz uma abordagem mais positiva.
Numa busca rápida ao Dicionário Michaelis, os verbetes encontrados, não ficam longe disso:
empresário em.pre.sá.rio adj (empresa+ário) V empresarial. sm 1 Pessoa que se estabelece com uma empresa ou indústria, tomando a seu cargo a execução de um trabalho. 2 Pessoa que, objetivando lucro, investe capital na realização de espetáculos artísticos, esportivos etc.
empreendedor em.pre.en.de.dor adj (empreender+dor2) 1 Que empreende. 2 Que se aventura à realização de coisas difíceis ou fora do comum; ativo, arrojado. sm 1 Aquele que empreende. 2 Aquele que toma a seu cargo uma empresa.
Como esse texto não pretende ser nenhum artigo acadêmico, me permito aqui, deixar os verbetes de lado e fazer uma interpretação filosófica dos termos baseada na minha experiência e sensibilidade de 20 anos de convivência com empreendedores e empresários, onde em minhas primeiras palestras, ainda na virada do século, via a necessidade de explicar o termo para me fazer ser entendida.
Uma vez, não me recordo a data ao certo, mas acredito que era em 2.004, tive a oportunidade de assistir aqui no Brasil, uma palestra da Anita Roddick. Para quem não conhece, Anita era uma mulher a frente de seu tempo. Inglesa, foi fundadora da The Body Shop, primeira marca de cosméticos a pensar em impacto ambiental e com isso quebrar paradigmas. Nessa palestra, ela, uma empresária muito bem estabelecida, com diversos prêmios e reconhecimentos mundiais, se auto-denominou empreendedora e usou uma definição para o termo, que passou a nortear a minha vida e meus estudos:
“A diferença entre os empreendedores e os loucos, é que os empreendedores conseguem comunicar com paixão a sua loucura.”
Perceba, que nessa frase, não tem os verbos fazer ou realizar, mas sim o comunicar. O substantivo, tão pouco é empresa, negócio, projeto ou dinheiro, mas loucura e o adjetivo, passa longe da eficiência, rapidez ou qualidade, pois é a paixão.
Para ela, ser empreendedor, não é montar um negócio, que possa escalonar e gerar lucros astronômicos. Para ela, empreender é conduzir pessoas a fazerem algo impensado, é influenciar, é liderar.
Foi em meados de 2.004 também, que tive a oportunidade de ler pela primeira vez o, na época recém-lançado, Best-Seller O Monge e o Executivo, de James Hunter. Acabei de relê-lo, junto com os outros 2 livros dessa trilogia, presente que ganhei de um querido jovem empreendedor que apoio e, é impossível não traçar um paralelo entre o Empreendedor de Anita e os ensinamentos de Hunter sobre liderança servidora;
Para Hunter, liderança é definida pela habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir objetivos comuns, inspirando confiança por meio da força do caráter.
Nesse mesmo texto, ele faz um contraponto entre o líder e o gerente: “Planejamento, orçamento, organização, solução de problemas, controle, manutenção da ordem, desenvolvimento de estratégias e varias outras coisas – gerência é o que fazemos, liderança é quem somos.”
Passada, já mais de uma década, continuo me apoiando nessas referências e, por isso, as tomo emprestadas na diferenciação da figura de Empresário e Empreendedor, comparando o primeiro a figura do gerente de Hunter, uma pessoa voltada a gestão, aos assets, aos resultados. Uma pessoa de grandes qualidades técnicas e com certeza comprometido com a empresa e o seu desenvolvimento. O Empreendedor, comparo ao líder, ao influenciador, que irá comandar o time pela confiança que é creditada a ele.
Dentro dessa minha visão, os papéis podem se somar. Um Empresário, pode ou não ser também Empreendedor, trazendo uma gestão mais humanizada e buscando inovações para o desenvolvimento de seu mercado. O Empreendedor, da mesma forma, pode usar sua liderança e “loucura”, para construir seu próprio negócio, ou empreender em outras empresas, causas ou associações.
Para terminar, sintetizo parafraseando Hunter:
Empresário é o que fazemos, Empreendedores é o que somos.